Roteiro de Viagem para Nagasaki. Parte 1: Nagasaki Histórica. A influência portuguesa e cristã.

Muito além da bomba

Localizada ao sul do país, Nagasaki é lembrada pela maioria das pessoas por seu trágico destino de ter recebido a segunda bomba atômica dos Estados Unidos no final da II Guerra Mundial.

Além de ter destruído a cidade, a bomba também apagou a memória de uma cidade muito próspera no passado e com uma História única.

Todavia, do mesmo modo que a cidade se reergueu após a destruição, seu passado tem sido explorado e recuperado.

Nangasaki: o início de tudo

Mapa antigo de Nagasaki feito pelos europeus (séc XVIII)
Mapa antigo de Nagasaki feito pelos europeus (séc XVIII)

Desde que os portugueses chegaram no Japão em 1543, o comércio entre os dois países se estabeleceu de forma vigorosa, demandando a necessidade de um porto adequado para as embarcações europeias.

Em 1571, finalmente foi construída a cidade de Nagasaki (Nangasaki, à época), ao norte da ilha de Kyushu, sob a supervisão dos portugueses.

Não somente os portugueses tiveram o direito de comercializar em território japonês, como também lhes foram concedidas áreas da cidade sob as quais governavam com leis próprias.

Junto com o comércio, vieram também os missionários católicos que tinham a missão de catequizar os nativos. Jesuítas espanhóis, italianos e, principalmente, portugueses, conseguiram converter uma parcela considerável da população do sul do Japão, inclusive alguns senhores feudais, o que lhes garantiram alto status político.

Do mesmo modo que o sucesso dos missionários lhes renderam destaque, também passou a marcá-los como rivais na intensa disputa de poder que havia no país à época. O resultado: o cristianismo e seus seguidores passaram a ser perseguidos, até o ponto em que passou a ser banido em todo território japonês em 1614.

Com a chegada dos comerciantes holandeses, os portugueses acabaram sendo preteridos e expulsos do país, pondo fim a mais de 8 décadas de relações com o arquipélago japonês.

Como legado, os portugueses deixaram marcas profundas no Japão e em sua sociedade. Fora o cristianismo, foram introduzidas no país diversas tecnologias como as armas de fogo, vestimentas, alimentos e o tabaco. Foi nessa época que os japoneses foram apresentados a pratos como o pão de ló, o tempurá, assim como o vidro, e vestimentas, tal como, as calças. Algumas palavras portuguesas ainda resistem na língua japonesa moderna, a exemplo do tabaco (tabako – たばこ) e copo (koppu – コップ).

Locais em que a presença portuguesa ainda pode ser vista

Agora, vamos para o roteiro propriamente dito:

1 – Bunmeido Shoten (文明堂総本店)

fachada da loja bunmeido em nagasaki

Uma das melhores coisas que os portugueses deixaram em Nagasaki foi o bolo Castella (Kasutera – カステラ, em japonês). Hmmm, só de lembrar dá água na boca 🤤!

Castella nada mais é do que o nosso conhecido pão-de-ló. Feito à base de farinha, ovos e açúcar, esse doce é uma das especialidades de Nagasaki, sendo mais comum o sabor tradicional. Há variantes como o de sabor limão.

Em se tratando de Castella, o local em que se encontra os melhores e mais saborosos é na Bunmeido Shoten, loja tradicionalíssima, localizada no centro da cidade. Desde 1900, eles produzem e vendem somente Castella, provando o quanto são especializados no assunto.

bolo castela exposto na vitrine da loja bunmeido
bolo portugues castela exposto na vitrine da loja bunmeido

Não deixe de dar uma visita (fica perto da estação principal de trem):

Bunmeido Main Store
1-1 Edomachi, Nagasaki-shi, Nagasaki-ken 850-0861
Site: http://bunmeido.sakura.ne.jp/en/

2 – Ruas com nomes portugueses

Ao caminhar pelo centro histórico de Nagasaki, se você prestar atenção nas placas das ruas, eventualmente verá nomes de personagens históricos na relação Portugal-Japão.

Como exemplo, a Rua Luis Fróis, nome de um importante missionário português que escreveu grande parte da história antiga de Nagasaki.

placa da rua luis frois em nagasaki

Ao longo dessa rua, é possível ver alguns vestígios da Nagasaki feudal, como algumas paredes que ainda estão de pé há mais de 400 anos, misturando engenharia europeia e japonesa.

muro antigo em Nagasaki com provável engenharia portuguesa

Assim como, há o marco de onde ficavam localizadas as construções da Misericórdia, um complexo erguido por um japonês cristão de nome Justino (hoje Santo Justino) que possuía hospital e abrigo para órfãos e idosos.

placa marcando localizacao do antigo seminário misericórdia em nagasaki

Aproveite e vá à rua paralela à Rua Luis Fróis. Nela, poderá ver essa pequena homenagem aos portugueses que residiram nesse bairro (Tsukimachi – 築町) há muitos séculos atrás:

galo de barcelos em nagasaki com mensagem em japonês
Galo de Barcelos

3 – Cristianismo

A História de Nagasaki é marcada pelo cristianismo. No intuito de preservar essas origens, foi erguido o Museu dos 26 Mártires no mesmo morro em que foram crucificados 26 cristãos em 1597. Lá, é possível encontrar diversos itens originais da passagem dos jesuítas pelo Japão, tais como cartas de Francisco Xavier e comunicações entre os governantes japoneses e o Papa.

Além do grande intercâmbio inicial, o cristianismo teve uma relação conturbada no país. Ao mesmo tempo que os clérigos eram peça vital no novo comércio entre Japão e Europa, eram vistos como ameaça pelo governo central. Após muitos conflitos, o cristianismo passou a ser banido e os europeus (especialmente os portugueses) foram expulsos.

A vasta documentação do museu nos conta detalhadamente essa parte da História nipônica. Para quem se interessar por esse período, já foi feito um post sobre o filme “Silêncio” de Martin Scorsese. No museu, há até peças cenográficas originais usadas no filme!

roteiro original do filme silencio dirigido por Scorsese
Roteiro do filme dirigido por Scorsese
Museu dos 26 Mártires
Nishizaka-machi 7-8, Nagasaki-shi, Nagasaki-ken 850-0051
Site: http://www.26martyrs.com/

4 – Museu de História e Cultura de Nagasaki

Um museu com conteúdo abrangente e dedicado à História do intercâmbio internacional. É uma boa pedida para os amantes da História, não somente japonesa, mas também do sudeste asiático e das Grandes Navegações no Oriente.

Normalmente, temos conhecimento do que os portugueses e espanhóis fizeram nas Américas, porém, pouco sabemos do que fizeram no extremo Oriente (as Índias Orientais). O museu reúne um extenso arquivo e coleção de objetos que tratam das relações internacionais de Nagasaki, especialmente com os portugueses, coreanos, chineses e holandeses.

Dentre as muitas exposições permanentes, as que destacam as relações com os portugueses e o cristianismo são: “Encontro com o Ocidente: comércio Nanban e cristianismo”; e “Artefatos cristãos”.

Nelas estão expostos vários objetos do período “Nanban Boueki” (comércio com os bárbaros), como gravuras representando a chegada dos portugueses, mapas e escritos diversos.

mapa dos descobrimentos entre europa e nagasaki
biombo representando a chegada dos portugueses ao japao

Se der sorte, no dia da sua visita poderá assistir a uma apresentação teatral em que se encena o trabalho do Magistrado local, autoridade que fiscalizava os produtos importados com o objetivo de verificar a entrada irregular de objetos cristãos e contrabando. É uma experiência bem interessante 😀

Nagasaki Museum of History and Culture
1-1-1 Tateyama Nagasaki Shi 850-0007
Site: http://www.nmhc.jp/global/english/index.html

Enfim, a presença portuguesa e cristã, apesar de 4 séculos de distância, ainda se faz notar em Nagasaki. A conexão é profunda e persiste, a ponto de ainda existir um Consulado português na cidade até os dias atuais.

placa de homenagem lisboa nagasaki
Não é difícil encontrar marcos da relação Portugal-Japão pela cidade

E é isso galerinha. Espero que tenham curtido esse roteiro e que possa ajudá-los quando viajarem para Nagasaki, aproveitando e conhecendo locais fora da rota.

PS: Falando sério, não deixem de comer Castella. É bom demais! 🤤

caixa de um bolo castela sabor limao
Não deixem de experimentar o sabor limão!

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